Doninha
Acredito que a verdade reside muito mais vezes no silêncio do que nas palavras, por mais belas e justas que sejam, mesmo quando voam do coração dos poetas para o coração do papel e ficam ali a dormir, à espera que alguém as apanhe.
Sou quase sempre de poucas conversas sobre mim, prefiro falar do mundo com ironia do que dissertar sobre o que me forra a alma, porque quem me conhece consegue ler nela quase tudo o que precisa e, além disso, sem palavras nunca há equívocos.
Mas adoro escrever, especialmente sobre o que me deixa feliz ou triste. Gosto de praias de areia branca, gin’s tónicos ao cair da tarde, sumo de laranja de manhã, noites claras e manhãs preguiçosas, a tua pele encostada à minha, a respiração do teu corpo adormecido e o cheiro da tua pele quando te estendes ao meu lado.
Tenho, dizem, uma docilidade genética, quase inconsciente, que me corre no sangue e que tento esconder de mim própria. Às vezes consigo: sei disfarçar a dor, a tristeza, a solidão, a ausência, o medo e o desencanto e quando não consigo, vou-me embora e lambo as feridas em segredo até estar curada.
O amor ao silêncio vem-me da infância, quando brincava anos a fio com a Doninha, um dos seres mais notáveis e superiores que conheci. Era uma rafeira de olhar vivo, corria como uma gazela e brincava comigo como uma criança. Sabia sempre qual era o seu lugar e usava o seu charme canino para me conquistar com grande talento.
A Doninha era a minha cadela, uma boa companheira e fiel amiga - e nunca precisámos de conversar.
Às vezes, muito poucas, eu dizia-lhe duas ou três coisas que me preocupavam e ela respondia-me com um olhar ou um suspiro, e eu percebia o que me queria dizer: que o mundo pode ser um lugar difícil, mas, se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E que o importante é não complicar, ter tempo para descansar e brincar, seja qual for a nossa idade ou profissão.
A Doninha ensinou-me a amar o silêncio e a respeitar o silêncio dos outros. Mas também me ensinou a atacar de forma letal os meus inimigos, a ser grata a quem me quer bem e a lamber as feridas longe dos outros.
Morreu envenenada e deixou um vazio na minha vida. Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida.
A Doninha tinha razão, a vida nem sempre é fácil e o mundo pode ser um lugar vil e torpe onde há homens que têm prazer em mutilar outros e envenenar cães - mas se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós.
Sou quase sempre de poucas conversas sobre mim, prefiro falar do mundo com ironia do que dissertar sobre o que me forra a alma, porque quem me conhece consegue ler nela quase tudo o que precisa e, além disso, sem palavras nunca há equívocos.
Mas adoro escrever, especialmente sobre o que me deixa feliz ou triste. Gosto de praias de areia branca, gin’s tónicos ao cair da tarde, sumo de laranja de manhã, noites claras e manhãs preguiçosas, a tua pele encostada à minha, a respiração do teu corpo adormecido e o cheiro da tua pele quando te estendes ao meu lado.
Tenho, dizem, uma docilidade genética, quase inconsciente, que me corre no sangue e que tento esconder de mim própria. Às vezes consigo: sei disfarçar a dor, a tristeza, a solidão, a ausência, o medo e o desencanto e quando não consigo, vou-me embora e lambo as feridas em segredo até estar curada.
O amor ao silêncio vem-me da infância, quando brincava anos a fio com a Doninha, um dos seres mais notáveis e superiores que conheci. Era uma rafeira de olhar vivo, corria como uma gazela e brincava comigo como uma criança. Sabia sempre qual era o seu lugar e usava o seu charme canino para me conquistar com grande talento.
A Doninha era a minha cadela, uma boa companheira e fiel amiga - e nunca precisámos de conversar.
Às vezes, muito poucas, eu dizia-lhe duas ou três coisas que me preocupavam e ela respondia-me com um olhar ou um suspiro, e eu percebia o que me queria dizer: que o mundo pode ser um lugar difícil, mas, se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós. E que o importante é não complicar, ter tempo para descansar e brincar, seja qual for a nossa idade ou profissão.
A Doninha ensinou-me a amar o silêncio e a respeitar o silêncio dos outros. Mas também me ensinou a atacar de forma letal os meus inimigos, a ser grata a quem me quer bem e a lamber as feridas longe dos outros.
Morreu envenenada e deixou um vazio na minha vida. Nunca esquecemos aqueles que amamos, nunca deixamos de amar aqueles que nos amaram, nunca perdemos a sabedoria que nos legaram, nunca deixamos de ter saudades daqueles que mudaram a nossa vida.
A Doninha tinha razão, a vida nem sempre é fácil e o mundo pode ser um lugar vil e torpe onde há homens que têm prazer em mutilar outros e envenenar cães - mas se formos bons, a vida traz-nos as pessoas certas que nos podem proteger e cuidar de nós.


1 Comments:
At 14 junho, 2006,
ana rita said…
mmm, doninha é pseudónimo, ou é a minha memória que é fraca?
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